sábado, 19 de março de 2011

a van circunda

penoso pensar
é praia amanhã
será que vai dar
todos na van?

aqui ela existe
mas outros também
quem é que insiste
em algo além?

de novo o corcunda
circunda o letrado
mas ao ver uma bunda
se torna tarado!

sexta-feira, 11 de março de 2011

simplesmente irresistível

um sorriso inconfundível
tão sincero que assusta
e dá medo quando custa
minha chance de ir atrás

dessa vez não tanto faz
vou tocar aquela pele
mesmo que este ato sele
um destino tão maçante

pois eu sou tão inconstante
que depois não mais irei
dar minhas caras feito rei
voltando logo a ser um bobo

que uiva feito um lobo
ao vê-la mesmo séria
pois em toda sua matéria
é simplesmente irresistível

quinta-feira, 3 de março de 2011

9º CONTO

ELE E O TÉDIO

Com o olhar fixo no teto do ônibus, ele se indagava sobre como o garoto promissor da família tinha parado ali. Todo seu percurso por um caminho aparentemente inviolável agora só parecia um grande erro ou o completo oposto disso. Sentiu-se sufocado com a visão do sólido metal que encarava e procurou algo mais reconfortante com os olhos. Deparou-se com a escotilha do veículo entreaberta de forma que pudesse ter uma noção do céu que existia lá fora, enfeitado com nuvens que passavam dando-lhe a segurança de um constante movimento.

Movimento era o que precisava. Mesmo quando, em vão, forçava uma saída da rotina para tentar se sentir vivo como antes, percebia que sua alma não acompanhava o ritmo de seu corpo, mantendo-se intacta. Pensou que aquele momento no ônibus talvez fosse a última dessas inúteis tentativas de autoafirmação, depois da qual finalmente se entregaria por completo ao acaso e abriria mão da responsabilidade por si mesmo.

De repente, em meio a todo aquele barulho urbano, identificou um som curioso e insistente, que surpreendentemente não o incomodava como os outros. Virou o pescoço a fim de descobrir a origem daquele som e deparou-se com uma jovem moça que escutava algo no fone de ouvido e batia a mão na coxa levemente, mas forte o bastante para ele ouvir, provavelmente seguindo o ritmo da música que escutava. Após alguns segundos, a moça tirou os fones de ouvido e ele virou rapidamente o pescoço para frente.

Lembrou-se de um antigo filme francês em que o mocinho era o bandido, e percebeu que nem era preciso ter tantas qualidades assim para ser capaz de conquistar uma bela moça, violando qualquer moral que ainda procurasse um sentido naquele rosto ingênuo. Convencido deste pensamento, tornou a girar o pescoço a fim de procurar mais uma vez o maior descanso que sua vista já tivera. Achou. Ela agora encostava a cabeça no vidro da janela e mantinha os olhos fechados, provavelmente tendo sonhos que ele nunca iria decifrar.

Por falar em sonhos, pensou nos seus... Não havia algo mais distante naquele momento, e teve que forçar a memória para enxergar grande parte deles novamente. Nenhum parecia ainda fazer sentido, e foi então que percebeu a real gravidade da situação que construíra para si mesmo. Situação esta que talvez fosse a única que já existiu, pois nada além daquilo aparentava um dia ter feito parte da sua vida.

Estava tão perdido em seu devaneio que nem se deu conta de quando a jovem abriu os olhos e, depois de algum tempo olhando pela janela, foi ao seu encontro com a vista. Permaneceu estático como se a surpresa e a alegria fossem demasiadas fortes para ele reagir de alguma forma. Ela lhe esboçou um leve e sincero sorriso, voltando o pescoço à posição original logo em seguida. De alguma forma, aquele gesto o despertou para a realidade dela, da qual ele sabia que, durante alguns segundos, tinha feito parte.

Sem querer, deu de cara com o ambiente do lado de fora da janela na qual ela recostava a cabeça e percebeu que sua hora havia chegado. Era o fim da linha para ele. Automaticamente, levantou-se e deu sinal para o ônibus parar. A condução diminuía a velocidade enquanto ele caminhava em direção à porta, fazendo com que aquele instante de revelação ficasse cada vez mais longe e menos real. Desceu.


O ônibus ainda estava parado quando ele ficou de cara com a jovem pelo lado de fora da janela. Ela ainda estava com os olhos abertos, mas seu olhar estava longe. Ele torcia para que ela esboçasse alguma reação à sua presença, girando o pescoço ou ao menos o olhar em sua direção.

Foi então que a mesma força que o levantara do acento contra a sua vontade dessa vez agia de um modo que parecia lhe favorecer. Como um mero espectador, ele observava seu braço se levantar em direção a ela. Seu dedo chegou a tocá-la no cabelo no mesmo instante em que o ônibus deu partida. O braço caiu à posição original em sinal de desistência.

Sem mais nada à sua frente, ele pegou o MP4 do bolso e colocou os fones de ouvido. Caminhou os mesmos passos de volta para casa, ouvindo uma música que falava de dor, maturidade e compromisso.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

ademar

adeus amigo velho
já levou oito nas costas
tratamento de terceira
de seu dono rola-bosta

não fosse eu ainda estava
pelas ruas a caminhar
com cara de semi-novo
em vez dos 15 revelar

adeus amigo velho
sem ti vai ser difícil
tua ida merece choro
com fogos de artifício

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

créditos

deu pau pra variar
desespero preocupante
eu tento me esquivar
de um futuro invariante

muita calma nessa hora
de bancar o merecedor
naquele tempo de escola
não tinha toda essa dor

mas no fim dá tudo certo
eu vou ter que acreditar
se não der, eu fico quieto
não adianta espernear

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

chega!

chega de poesia
chega de magia
vou pra putaria
vou cair nessa folia

chega dessa rima
chega desse clima
vou pegar meu ímã
puxar mulher pra cima

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Série Velhos Poemas: AO FIM DE UM LONGO DIA

todos quietos nesta noite escura
fecha os olhos, fecha a alma
aí dentro tem alguém além de ti

não tem chão, mas tu sabes flutuar
não tem sol, mas tu possues o luar

pede à mão de deus
que te suspenda ao infinito
e te sepulte nas estrelas
sempre junto a ela